CONTRARIANDO AS ESTATÍSTICAS: CONSIDERAÇÕES SOBRE O ROMANCE CIDADE DE DEUS, DE PAULO LINS, E SOBRE O HIP-HOP DOS RACIONAIS MCS
Benito Martinez Rodriguez - USP/UFPR
O livro pode causar um certo impacto por eu ser negro, morador da favela, com formação universitária. Mas vai passar. Há mais de 100 anos a literatura brasileira trata da violência rural e urbana, e nada mudou”.[1]
A frase acima foi transcrita de uma entrevista concedida por Paulo Lins à revista Veja há quase três anos. O livro em questão, Cidade de Deus, sua estréia como romancista, de fato, faria uma rápida e bem sucedida carreira entre os lançamentos daquele ano, recebendo resenhas nos principais órgãos da grande imprensa, além de despertar considerável interesse entre os críticos acadêmicos dedicados ao exame da produção corrente. Recorde-se que já em outubro daquele ano, o editor Luiz Schwarcz , segundo a imprensa, festejava a venda dos direitos do romance para futuras publicações na França, Itália e Inglaterra[2]. Para bem e para mal, o artigo de Roberto Schwarz, “Uma aventura artística incomum”[3], avivou o debate em torno daquele romance, com um punhado de episódios de franco elogio e de algumas manifestações de reserva na recepção do romance, ao ressaltar na obra “energias artísticas novas, que não cabem na noção acomodada de imaginação criadora que a maioria de nossos escritores cultiva.” (p.13)
Naquele mesmo ano, o grande circuito musical paulistano era definitivamente advertido da força dos jovens componentes do grupo Racionais MCs, que preparavam o lançamento de seu quarto disco, Sobrevivendo no Inferno (Cosa Nostra, 1997), cujas vendagens, a despeito do processo de distribuição independente e da recusa em participar dos programas de divulgação das grandes emissoras de televisão de sinal aberto, passariam dos 500 mil exemplares no ano seguinte, assegurando os contatos a gravação de um videoclipe que conduziu à inusitada conquista do prêmio de preferido do público na festa anual da MTV brasileira.
O exame cuidadoso deste trabalho de Paulo Lins ainda está por ser feito, e decerto, não caberia nos limites de uma apresentação desta natureza. A discussão sobre a complexa rede de relações e contradições que marcam a posição dos rappers no quadro da indústria fonográfica local igualmente transcende o escopo do presente texto.
Meu propósito é abordar, em contraponto, certos aspectos relacionados ao aparecimento, em anos recentes, de manifestações artísticas forjadas na experiência de comunidades populares urbanas, resultantes da ação de artistas cujo perfil, seja quanto à extração de classe, seja quanto às formas de expressão, podem, de fato representar gestos artísticos de energia renovadora.
O caráter improvável destes desenvolvimentos é diretamente proporcional ao agravamento do quadro de exclusão social no país ao longo deste século, sobremaneira nas grandes capitais, cujas populações pobres foram sendo progressivamente conduzidas a um mergulho no modo de produção que tritura sua energia física e moral, impondo padrões expropriação econômica e de relação social brutalizadores.
Pois é precisamente de vozes situadas no interior destas comunidades que parecem emergir alguns gestos criadores, de fato, instigantes. Não é demais recordar que o romance de Paulo Lins tornou-se uma realidade graças à circunstância de ele ser recrutado como colaborador em uma pesquisa de Alba Zaluar, que examinava a violência e a criminalidade no Rio de Janeiro. Figura de fronteira entre o mundo da exclusão e os círculos da academia e da cultura letrada – lembremos que, a duras penas, Paulo Lins concluiu um curso de graduação em Letras na UFRJ, constituindo-se num destes raros casos de um brasileiro negro, pobre e favelado com diploma superior obtido em instituição pública de ensino superior. Dos dados coletados através das entrevistas com gente de seu bairro, assim como de sua própria memória pessoal, refundidos com as experiências de poeta de mimeógrafo até o projeto do romance seu movimento foi arrojado. A apresentação de seu trabalho a Roberto Schwarz por Alba Zaluar, contudo, daria o impulso decisivo a Cidade de Deus. Não tanto no plano das recomendações teóricas, o aval do crítico terá sido essencial para que o romancista fosse lançado pela Companhia da Letras, assegurando o espaço no cenário do debate crítico e ilustrado.
O caso dos Racionais MCs parecerá, à primeira vista, muito diferente. Não possuindo nenhum deles formação superior ou quaisquer aspirações a inserir-se no quadro do debate intelectual acadêmico, o quarteto de rappers paulistanos trilhou outros percursos até sua “legitimação” pela grande imprensa – antes de 1997 eles eram virtualmente invisíveis fora das regiões periféricas. Seu caminho rumo à explosão do CD Sobrevivendo no Inferno e a premiação na MTV contou, entretanto, com um pequeno mas importante apoio da administração petista do município de São Paulo entre 1989 e 1992, quando o grupo envolveu-se com projetos educacionais associados à “Cultura de Rua”. O investimento governamental em projetos desta natureza, interropidos na capital, mas continuados na região do ABCD, na área de influência das administrações de esquerda, principalmente em São Bernardo do Campo e Diadema, terá tido ponderável contribuição para a difusão da cultura do rap e, por extensão, do próprio trabalho do grupo.
É certo, no entanto, que a força dos Racionais não precisaria de muito mais do que tempo para transbordar a periferia e fazer-se vista e ouvida pelo público mais amplo, cuja experiência é filtrada pela mídia convencional. Além das festas de bairro, os Racionais MCs, assim como muitos outros artistas independentes, dentro e fora do hip hop, contam igualmente com as perseguidas e injustiçadas rádios comunitárias, operando em freqüências alternativas e com alcance muitas vezes não maior do que alguns quarteirões.
Sob este aspecto, ao impulso representado pelo aval acadêmico, no caso de Paulo Lins, corresponderia a lenta constituição de uma rede de divulgação mais ou menos informal que fez com que “a voz de dentro” – na expressão do próprio Paulo Lins a respeito do rap em entrevista recente[4] – pudesse ser ouvida fora dos guetos.
As letras dos Racionais MCs já foram objeto de trabalho de sociologia, a exemplo da comunidade da qual emergiu Paulo Lins e a partir da qual ele construiu seu romance. Para o quarteto paulistano, entretanto, interessa menos a interlocução e a respeitabilidade por parte das elites – a despeito da inegável sensação de orgulho por sentir-se alvo da atenção por parte de setores intelectuais – do que a possibilidade de comunicar-se com sua própria comunidade[5].
De certa maneira, em ambos os casos, a ação criadora de Lins e dos Racionais parece posicionar-se nas fronteiras da exclusão social, propiciando meios para uma interlocução com as classes médias intelectualizadas, oferecendo-lhes, por meio da vigorosa ficcionalização da brutalidade cotidiana das periferias, uma oportunidade de pensar seu lugar e seu papel nesta tragédia; por sua vez, os artistas paulistas apontam seu discurso na direção dos próprios vizinhos, empenhando-se em operar num registro apto a tocar seus corações e mentes.
Quando do lançamento de Cidade de Deus, embora reconhecendo que a 27 reais o exemplar, ele não poderia comprar seu próprio livro, o autor arriscava que talvez 20 % dos seus conhecidos leria o romance[6]. Dois anos mais tarde, Paulo Lins estimava mais pessimisticamente as possibilidades de difusão de seu romance entre os contigentes mais populares. Comentando os uma planejada adaptação cinematográfica do romance ele declarou: “O filme, sim. O cinema, apesar de ser de pouca penetração, tem mais do que a literatura. Já o livro ninguém leu mesmo.”[7]
Para um livro de estréia, com mais de 550 páginas, centrado em problemática tão pouco digestiva, os 10 mil exemplares vendidos de Cidade de Deus não são propriamente um malogro editorial. Trata-se, contudo, de leitura para poucos, para aquela fração de gente ilustrada na qual podemos esperar que se recorte uma fração de ativistas comprometidos com ações contribuam para minorar o os efeitos desastrosos do moinho de moer gente que esta nossa sociedade segue sendo há séculos.
Mas entre os leitores do romance de Lins estão os próprios integrantes do grupo Racionais MCs, assim como por Ferréz, 24 anos, ex-padeiro e morador da Zona Sul de São Paulo, autor do recém-lançado romance Capão Pecado[8], o que de algum modo vai revelando o sentido da repercussão do trabalho do romancista carioca, assim como dos rappers da região.
Como o próprio Paulo Lins apostava, há três anos: “Meu livro vai ter de chegar de boca em boca. Alguém lê, conta um pedaço para o parceiro. Outro ouve falar que está citado. O terceiro dá uma passada lá em casa, vai conferir se saiu bem, e assim vai.”
Estas redes de solidariedade comunitárias que, no plano dos mutirões locais, pode organizar-se para erguer a laje de uma nova moradia ou edifício de interesse coletivo, pode também, agir no plano cultural, apoiada nos recursos disponíveis através da Internet, circuitos alternativos de difusão, oficinas de ensino de aspectos da “Cultura de Rua” e da própria redistribuição de parte dos recursos acumulados pelos artistas de ponta que abriram frestas importantes no mercado do disco e dos shows, como os Racionais, dando substância a iniciativas ligadas à educação comunitária e promoção cultural e esportiva.
A propósito, não deixa de ser irônico que a fina flor do que se convencionou chamar de MPB tenha sido objeto de exame desde a perspectiva do marketing comercial num estudo intitulado As Marcas Registradas na MPB, de Evandro Piccino. O autor, vice-presidente de planejamento e pesquisa da agência Publicis Norton, identificou 180 canções brasileiras nas quais são mencionadas marcas registradas, dos aviões da Panair ao Corcel 73. Lançado em 1999, o estudo – oportunamente acompanhado de um CD com reprodução de um punhado destas canções – certamente estava destinado a tornar-se livro de cabeceira dos publicitários atentos às potencialidades mercadológicas de associar a marca de seu cliente à força das canções nas quais elas são – ainda que ironicamente – citadas. Ao mesmo tempo, Netinho, o sempre sorridente líder do grupo Negritude Júnior, anunciava mais um passo em seus investimentos na região Carapicuíba, sua região de origem, reformando e ampliando um ginásio poli-esportivo local e associando a cidade a nada menos do que a equipe feminina de basquete comandada pela ex-campeã Hortênsia Marcari. Seu propósito, segundo a notícia, era colaborar para que aquela comunidade, onde ele próprio cresceu, aparecesse nos noticiários de imprensa fora da seção policial, além de objetivamente oferecer oportunidades de promoção social, por meio da educação esportiva, para jovens e crianças da periferia[9].
Não deve surpreender que Netinho e Mano Brown sejam excelentes amigos. Assim como Ferréz, o jovem romancista de periferia paulistano, seja apaixonado por pipas. Como as personagens de Paulo Lins.
[1] “Qualé, cumpádi?”. In: Veja, n.1508, 13/08/1997 p.114-120 (seção Veja Livros).
[2] “O editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, está eufórico em Frankfurt. Ele já vendeu os direitos do romance ''Cidade de Deus'', de Paulo Lins, para editoras da França, da Itália e Inglaterra.” (Folha de S.Paulo, 18/10/1997, ILUSTRADA, p.10).
[3] Folha de S.Paulo, 07/09/1997, MAIS! p. 12-13.
[4] “Onde o revólver é a lei”. In: Folha de S.Paulo, 22/07/2000, ILUSTRADA, p. 3.
[5] Uma das fontes para informação sobre a trajetória do grupo são as várias homepages matidas por seus admiradores, que somam perto de duas dezenas. Entre as mais completas e que oferecem acesso a links relacionados às diversas manifestações da “Cultura de Rua”, pode-se mencionar o endereço http://www.geocities.com/Eureka/Plaza/1704. No plano acadêmico, ressalte-se o trabalho pioneiro de Elaine Nunes de Andrade, O Movimento negro juvenil: um estudo de caso sobre jovens rappers de São Bernardo do Campo. São Paulo, FEUSP, 1996, Dissertação de Mestrado na área de Sociologia da Educação. Adicionalmente, a revista Caros Amigos publicou edição especial dedicada ao “Movimento Hip Hop” em janeiro de 1998.
[6] “Gente, a 27 reais nem eu poderia comprar o meu livro! Talvez uns 20% das pessoas que conheço possam. Mas vão ter de comprar em outro lugar, pois a Cidade de Deus não tem livraria. Nenhuma. Só temos três precárias bancas de jornal, e na feira livre de vez em quando se vêem livros velhos, discos e revistas também velhas à venda, na rua. Meu livro vai ter de chegar de boca em boca. Alguém lê, conta um pedaço para o parceiro. Outro ouve falar que está citado. O terceiro dá uma passada lá em casa, vai conferir se saiu bem, e assim vai.” In: Veja, 13/08/1997, p. 118.
[7] Folha de S.Paulo, 15/12/1999, ILUSTRADA. p.3.
[8] São Paulo, Labortexto Editorial, julho de 2000.
[9] Ambas as notícias foram extraídas do jornal Folha de S.Paulo, de 14/09/1999, DINHEIRO, p. 4 e ESPORTES, p. 3, respectivamente.